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/OFF: Os Melhores Filmes da Década


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Posted 10/02/2010 - 02:17

http://www.hcgbrasil.../02/sinfeld.bmpOlá, boas pessoas do planeta terra! Eu (provavelmente) tenho um nome, mas não vou lhe dizer qual é; enquanto isso, eu queria que você desse uma olhada nesse compilado de filmes que eu achei legais e adoraria gastar seu tempo forçando que você leia o quanto eu gostei desses filmes.

Agora isso é estranho. Sério pessoal: algum momento de suas vidas vocês pararam para equacionar quantas vezes por dia você lê conteúdo de pessoas das quais vocês não sabem a coisa mais básica, o nome? Isso na verdade, levanta várias perguntas interessantes, pra falar a verdade. Dizem que a Posted Imagemaior causa do divórcio pelo mundo inteiro é que, quando as pessoas começam a se conhecer de fato, elas perdem a atração uma pela outra. Basicamente, isso significa que em uma festa de formatura, ou algo desse tipo, uma garota viu um cara com uma jaqueta de couro preta, fumando um cigarro (todos os garotos descolados tem seus cigarros á mão, perdedor!) enquanto reclinava as costas num carro, e pensou: “Nossa! Que sujeito misterioso! Será que ele já matou alguém?”. Enquanto isso, o cara, vendo aquela garota loira, com uma saia justa, àquela roupa toda por cima (regra 42: mulheres com roupas fazem os homens imaginarem elas sem roupa, Juquinha!), e um piercing na boca, imagina: “Nossa, que garota bonita! Até onde essa garota vai? Será que ela gosta de Rock?”. Muitos anos depois, esses dois estão casados: ele já não tem mais mistérios, ele já a viu sem roupa, e ainda mais grave, o tempo passou e deixou-os consideravelmente menos atraentes.

Você pode achar que essa analogia é bobagem, mas esse é o grande motivo pelo qual todos os setores de nossa sociedade têm um fetiche obscuro pelo mistério. É por isso que as pessoas usam nomes falsos para a internet, é por isso que existem “anúncios secretos” na indústria dos games e é por isso que você nunca vai ver, em toda sua vida, mesmo que viva por mais de mil anos, uma foto de Tomonobu Itagaki jovem, antes de uma jaqueta de couro e óculos de sol terem se tornando uma parte permanente de sua indumentária. E ei, não existe problema nenhum com isso. Algumas pessoas gostam de alertar periodicamente que as pessoas temem o que elas não conhecem. Sim, isso provavelmente acontece várias vezes. Mas, acredite “amedrontador” e “interessante”, estão numa mesma prateleira.

Você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o que eu vou falar.

Bem, antes de conectar as duas pontas, comecemos do começo. O artigo que você está prestes a ler é um compilado dos vinte filmes que o indivíduo que vos fala considera os melhores filmes da década passada. E já que estamos nesse assunto, vamos tirar essa do caminho: a década ainda não acabou; eu sei muito bem. Ainda falta esse ano. Essa década começou em 2001, assim como esse século e esse milênio. A virada do milênio foi em 2001, e esse fato é caracterizado mesmo em peças culturais anteriores à virada; por exemplo, o filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, o longa vendido como uma reflexão sobre tolice humana (embora, com todo respeito, os idealizadores do filme quem estejam parecendo tolos hoje em dia, ao acharem que em 2001 nós teríamos toda essa tecnologia), do cineasta judeu Stanley Kubrick é ambientado em 2001 justamente pelo fato de ser o primeiro ano do terceiro milênio, do século XXI e o primeiro ano da primeira década dos anteriores! Mas o fato é que hoje em dia, houve meio que uma adoção do ano 2000 como o primeiro de nossa década. Isso se deve a alguns fatores básicos: Posted Imageprimeiramente, devemos nos lembrar de todo o alvoroço com o problema Y2K que já datava de épocas anteriores, praticamente desde que computadores pessoais e macs se popularizaram no mercado do consumidor médio nos países de primeiro mundo. E, no mais, as pessoas estavam morrendo de vontade de fazer listas sobre coisas dessa década, então pareceu extremamente conveniente começar antes da hora. E particularmente para os críticos de filmes, essa idéia veio a calhar: o ano 2000 foi um grande ano para o cinema (acredito que é o ano que tem a maior quantidade de filmes em relação aos outros nessa lista, inclusive), e no fim da década de 90 eu suponho que ainda não estava tão na moda fazer listas e colocar na internet.

Então, sobre todo o lance sobre mistérios e coisas do tipo. Apesar de o ser humano ser instintivamente atraído por mistérios, muitos acham que a natureza de um filme deve ser estática ao ponto de entregar todas as respostas para você. Então, muitas pessoas acham que filmes aparentemente “inconclusivos” (que muitas vezes são muito mais “conclusivos” que qualquer outro filme), são ruins. Eu vi isso com meus próprios olhos. Você já Posted Imageassistiu Onde Os Fracos Não Têm Vez? Caso não, saiba que é um filme adorável dos irmãos Coen, que por pouco não chega à minha lista. Muitas pessoas que eu conheço odeiam esse filme porque acham que ele “deixa muitas dúvidas”. Justamente esse tipo de pessoas são quem acham que um filme, sem exceção, deve ser uma expressão de idéias dos idealizadores, que fala exatamente o que eles querem dizer. Bem, talvez esse tipo de pessoas deva se acostumar com o fato que o cinema é um tipo de entretenimento e ofício baseado em imagens, e não em idéias – Deus do céu, estou perdendo a conta de quantas vezes eu já disse isso – idéias ficam ótimas em um papel: em um papel, você pode descrever idéias com detalhes minuciosamente claros. Em um filme, no entanto, se você fizer com que idéias tenham mais espaço que imagens, você obviamente está indo contra a natureza do meio. Um filme pode ser uma experiência tão mais completa se quem estiver fazendo der prioridade as imagens de um filme. Existe a imagem que o expectador vê: você vê beleza nos lugares, você consegue entender o que está acontecendo em um nível profundo e emocional com as expressões faciais dos atores. Depois, em um filme que realmente é grandioso, também existe a imagem abstrata: a imagem que você não vê, a imagem que você pode ser o que você quiser, a imagem que perderia a magia se fosse mostrada.

Eu realmente não sei se estou sendo específico o suficiente.

Mas enfim, vou lhe dizer mais alguns detalhes básicos dessa lista pra você. Essa lista, na verdade, é uma lista que eu já fiz há algum tempo, mas com algumas modificações. A primeira coisa é que, antes, a lista tinha uma numeração de colocação para todos os filmes. O problema é que eu não fiquei suficientemente satisfeito com a lista daquele jeito. Pareceu-me injusto dizer que um filme, especificamente, era melhor que outro, especialmente levando em conta que os filmes são muito diferentes um dos outros. Então, eu resolvi colocar todos os filmes apenas em ordem alfabética, com um porém: existe um filme, em particular, que, de acordo com o que eu acho que seja necessário para fazer um filme que beira a perfeição, é absolutamente, sem dúvida alguma, o melhor filme dessa década – e quando nós chegarmos nele, eu vou te apontar que é.

Entrando em temas um pouco mais, digamos, desconfortáveis. Um ou outro de vocês provavelmente vai poder notar a ausência de algum filme que vocês jamais excluiriam de uma lista de melhores filmes dessa década. Bem, vamos falar rapidamente dos suspeitos mais prováveis. Primeiramente, o filme Posted Imageestrela de James Cameron, Avatar. Olhem, eu estou dizendo pra vocês, com toda a sinceridade do mundo, que eu não odeio James Cameron. Eu não posso dizer que eu morri de amores por Titanic, de 1997, mas, olhando pra trás,eu gostei muito dos filmes Exterminador do Futuro que ele fez, e eu simplesmente amei aquela maravilhosa paródia sobre filmes de ação que ele fez em True Lies. Mas, sinceramente, eu tenho grandes problemas em engolir Avatar. Pra começar, espero que estejam cientes de que o filme é uma versão anabolizada de um filme que já existia chamado Delco (ok, eu posso estar exagerando um pouco dizendo que o filme é idêntico a Delco, mas existe MUITO conteúdo semelhante), com uma diferença de contexto básico para uma metáfora sobre a relação índio/homem branco. No temor que falar desse filme poderia levar páginas e mais páginas de texto, eu simplesmente pediria que você desse uma olhada nesse vídeo, e tirasse suas próprias conclusões. Afinal de contas, eu não estou falando que Avatar é o pior filme do mundo, até Shigesato Itoi falou em seu blog que gostou do filme, conheço várias pessoas inteligentes que gostaram do filme, então não pode ser tão ruim. Talvez só não seja meu tipo de filme, e eu acho que isso deixa o caso encerrado.

Então, existe o fator Quentin Tarantino. Eu decidi não incluir nada dele nessa lista, não porque eu o odeio, não porque eu quero ser do contra. Eu genuinamente não acho que nenhum dos filmes que ele fez nos últimos dez anos foram tão fantásticos assim. O que eu posso perceber é que muitas pessoas gostaram do novo filme, Bastardos Inglórios, e odeiam todas as pessoas que não gostaram do filme. Bem, pra essas pessoas, eu só vou dizer que o “Jew Comeback” não é tudo isso. Na verdade, francamente, foi um dos filmes mais bobos do ano. E infelizmente não parecia estar muito consciente disso.

Então. Mas dizer que eu não gosto de Bastardos Inglórios não é dizer que eu nunca gostei do trabalho de Tarantino, ou mesmo dizer que ele não fez bons filmes nessa década pelo contrário. Se eu tivesse que escolher qual foi o Posted Imagemelhor dessa década, provavelmente eu optaria para um empate entre Kill Bill Vol. 2 e Prova de Morte. Muitas pessoas não gostaram desses dois filmes, mas eu achei eles muito bacanas. Eles mostram muito da originalidade do diretor. E se ainda assim você acha que eu não gosto de Tarantino, veja só: eu acho que Jackie Brown é, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes já feitos. Provavelmente também é a melhor adaptação que existe de um filme de Elmore Leonard. Muitas pessoas gostam mais de Pulp Fiction ou Cães de Aluguel, mas sério, eu acho que Jackie Brown é onde existe a balança perfeita de maturidade e de criatividade.

Chega de Tarantino. Ainda temos no caminho o caso das adaptações de quadrinhos. Infelizmente eu não achei nenhum filme que fosse bom o suficiente pra colocar nessa lista. Sim, eu sei que nesse momento alguém está Posted Imageesbravejando “Como assim? E Dark Knight! Heath Ledger morreu para pagar os seus pecados e você não vai colocar seu melhor filme na lista?” ou “Morra! E os filmes de Zack Snyder, que são quadrinhos ganhando vida orgânica na tela de cinema?”. Bem, esse é um assunto muito complicado, pelo menos no momento. Isso se deve a alguns fatores, entre eles minha política de transposição de quadrinhos para o cinema e também o case de eu ter alguns problemas com Watchmen desde o começo, por exemplo. Mas uma explicação mais complexa sobre todos esses assuntos será abordada em um futuro artigo, eu prometo.

Então, basicamente, é isso. Bem vindo à lista dos vinte melhores filmes da década: Aqui está o que realmente importou.

A viagem de Chihiro (千と千尋の神隠し, 2001)

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A melhor animação da década é uma obra e tanto. Um dos melhores trabalhos do estúdio Ghibli e da carreira de Hayao Miyazaki, é fácil ficar impressionado com A Viagem de Chihiro e sua animação vivaz, mas a fantasia de Hayao Miyazaki – que foi atual na época do lançamento é atual hoje e vai ser atual daqui cinqüenta anos – é o que conduz o filme. O enredo do filme é de uma criatividade absolutamente gritante: uma garota de dez anos vai parar em um mundo habitado por monstros e espectros. E no decorrer do filme, fica notável que as referências e mitologias dignas dos irmãos Grimm se entrelaçam com um conto de complexidade emocional tão grande quanto uma peça de Shakespeare. No fim das contas, o que é apresentado no filme não é somente um pedaço de evento cultural. O estúdio Ghibli é mais que isso; estamos vendo uma alegoria animada de uma peça de folclore, habitada por uma maturidade emocional em um mundo irreal que poucos seguidores de teologia no fim da vida conseguem obter. Chihiro, no entanto, chegou lá com dez anos. Inspirador. O fato é que, mais e mais, eu consigo entender uma coisa: Hayao Miyazaki é o novo Disney. Ele fez clássicos imortais como A Viagem de Chihiro e O Castelo de Cagliostro. Na verdade, ele só não é mais que o próprio Disney porque Miyazaki, documentadamente não foi quem inventou Oswald, o coelho sortudo, o mais importante personagem de desenhos animados de todos os tempos. Mas, francamente, Miyazaki ainda tem um bom tempo pra chegar lá. Em uma entrevistas, Miyazaki se zanga com o fato que ele sempre diz que o filme em que ele está trabalhando vai ser o último, e sempre acaba trabalhando em outro. Com o lançamento do ótimo Ponyo com distribuição da Disney, Miyazaki disse que não vai dizer que é o último, para que talvez de fato seja o último. Eu realmente espero que ele esteja brincando. Os personagens de Miyazaki adoram pregar peças – o autor sempre disse que preferiu os vilões – e eu espero que essa seja uma dessas peças, e que, um dia, eu veja um clássico Disney oficial, dirigido por Miyazaki. Muito sonho? Talvez. Mas em A Viagem de Chihiro, a protagonista está em um mundo de sonhos, e no final, tudo acaba bem. Claro, é só um filme. Esqueci-me disso por um momento.

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Amor à flor da pele (花樣年華, 2000)

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Wong Kar-Wai, o chinês diretor do clássico de 1994 Chungking Express, certamente deixou sua marca também nessa década. Disponível para amar, a nova incontestável maravilha do diretor traz um chamego fetichista pela moda dos anos 60 tão forte quanto a (também genial) série Mad Men. Com esse visual todo idealizado e com estilo de sobra, a balada de Nat King Cole em espanhol vira a música-tema para os corações solitários. O filme é, na falta de uma expressão melhor pra descrever, tudo de bom. Nós temos o fator nostalgia, que brilha a cada quadro do filme. Nós temos um incrível uso de cultura-pop no filme, fazendo a nostalgia se equilibrar com frescor e atualidade. Nós temos visuais de cores simplesmente fantásticas, cortesia do cinematógrafo Cristopher Doyle, que fazem do filme um afrodisíaco metafísico. O conto de dois vizinhos – A imponente Sra. Su Li-zhen (Maggie Cheung) e aspirante a escritor pulp Sr. Chow (Tony Leung) – que estão inseguros para entrar em contato um com o outro por causa de seus cônjuges. Então, no decorrer do filme, é possível notar uma extensa troca de olhares, os dois se esbarrando abruptamente em um corredor, tentativas de segurar a mão… E todas essas ocasiões, e o impacto emocional que elas tiveram, em certo ponto, desaparecem na frente de nossos olhos. E essa obra-prima dramática se deve a direção afiada e singular de Wong e os atores protagonistas, que dão a maior interpretação de suas carreiras nesse filme. Wong não corrompe esse filme com atos consumados. Filmes sobre adultério normalmente são sobre os adúlteros, mas o crítico Elvis Mitchell observou astuciosamente que aqui, os protagonistas são “O tipo de personagem que normalmente é morto em um enredo de James M. Cain”. Seus cônjuges podem pecar em Singapura, Tóquio ou um “Love Hotel” no sul da cidade, mas eles nunca vão pecar na frente de você, na tela que exibir esse filme, pois seu adultério é chato e ordinário, enquanto a reticência que Wong deixa no filme eleva o amor dos protagonistas a um tipo de perfeição nobre. Esse é exatamente o tipo de filme que poderia ser exportado para o ocidente com Tom Hanks no papel de um dos protagonistas. Ou, talvez não.

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As coisas simples da vida (一一, 2000)

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Esse filme é O Casamento de Rachel, é The Cosby Show e Hannah e suas irmãs em um único pacote de cinema maravilhoso. O circuito brasileiro já admira Tsai Ming-liang, Hou Hsiao-Hsien e Wong Kar-wai, os dois primeiros representantes de Taiwan e o último de Hong Kong. Na lista de tão difícil pronúncia é obrigatório um quarto integrante a partir de hoje. Trata-se de Edward Yang, outro cineasta radicado em Taiwan, e, como os colegas, dono daquela virtude de falar sobre o seu lugar como espelho do mundo. É o que ele faz em As Coisas Simples da Vida, título irônico para o complexo painel de aflições que montou em três horas de fita. Complexo e corriqueiro ao mesmo tempo. Essa pode ser a definição genérica para o cinema produzido pelos talentosos nomes dessa espécie de nouvelle vague asiática – mas cada um faz a seu modo. Ming-liang, por exemplo, adota o inusitado como ponto de partida para flagrar vidas em desespero, a lembrar a dor de pescoço que une pai e filho em O Rio e a rivalidade e redenção entre vizinhos causada por um buraco no teto, situação que batiza o filme O Buraco. Hsiao-Hsien e Kar-wai podem variar seu material, mas costumam contemplar a juventude marginal, o segundo mais esteta que o primeiro. Yang aponta para um universo reconhecível ao grande público. Também ambicioso. Seu cinema vai à família, mas o tema pode ser facilmente ampliado para uma classe média em crise. Daí a aparente simplicidade desse painel, que logo se mostra intricado, com gosto de tragédia. Não por acaso, Yang optou por um formato cíclico. O filme abre com um casamento e fecha com um funeral. A noiva está grávida e é ponto de discórdia, pois acabou afastando o marido de sua ex-amante. Traída, a moça dá um escândalo na festa. O prenúncio da morte vem com um enfarte da matriarca, a avó do noivo, logo após a cerimônia. Estão lançados, assim, a base dramática e o desafio ao espectador: nada até aqui parece indicar um roteiro instigante. E, de certa forma, não será até o final. Para admirar Yang, é preciso condenar todo o espectro do que se convencionou chamar cinema pelas normas de Hollywood. O cineasta de Taiwan tem estilo e tempo próprios, o que equivale ao oposto da linguagem americana de circuito comercial. Nem por isso é mais radical que Ming-liang ou seus colegas. É possível dizer que Yang é mesmo convencional no formato e no universo em que filma; mas é exigente na compreensão e no envolvimento que pede do espectador. Afinal, este logo reconhecerá o princípio, digamos, vulgar que rege a vida de seus personagens e precisará atenção para encontrar as sutilezas. Visto o casamento e o colapso da avó, passa-se aos demais componentes e histórias da trama. Elas vão se desdobrando, a partir da chegada da matriarca, em coma, à casa da família da filha (Elaine Jin). Esta pede a todos que passem algum tempo conversando com a mãe, para que ela acorde mais rápido. O mais reticente é o neto pequeno, Yang-Yang (Jonathan Chang), óbvio alter ego do diretor que duplicou seu sobrenome no personagem e os olhos que conduzirão o espectador. Sua irmã, a tímida adolescente Ting-Ting (Kelly Lee), também se mostra impotente perante a doença da avó e preferirá a companhia da liberal amiga e vizinha. O namorado desta será outra ponta da trama. O círculo familiar se fecha com o melancólico pai (Wu Nienjen), um executivo da área da informática, em crise na empresa que pode quebrar, em casa com a mulher frustrada e, suprema dor, com o reaparecimento de seu grande amor de escola. A vida como ela é: casamentos mal estruturados, crises românticas, existenciais ou financeiras, a descoberta do mundo e do desejo. Na moderna Taipei, Yang elege uma classe média que ascendeu com o ‘boom’ da economia asiática e começa a sentir os primeiros efeitos da derrocada. Não pinta um quadro coletivo de desesperança, mas individual. Isto já está contido no título em chinês: ‘Yi Yi’ é a repetição de ‘um’ e simboliza a individualidade. O diretor acolhe uma família mas não a vislumbra como tal; aparentemente unida, ela se desagrega nos problemas de cada integrante. Em última análise, não deixa de ser um contraponto à crença da forte ligação aos valores familiares da cultura oriental. Eles são renovados, como numa redenção, no emocionante discurso final do menino. Mais uma vez, como na vida, nem todos os personagens são passíveis de redenção.

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Batalha Real (バトル・ロワイアル, 2000)

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Esse filme, Batalha Real, é um filme baseado em um livro de Koushun Takami, publicado no ano de 1999. Futuramente, este também viria a se tornar um Mangá. A obra, como um todo, é largamente conhecida por ser controversa e popular no Japão. O filme foi dirigido por Takeshi “Beat” Kitano, um dos cineastas mais brilhantes do Japão atual, e fez filmes brilhantes como Zatōichi, um filme de samurai como a muito não se via. Batalha Real é igualmente brilhante ao seu diretor. O filme é descrito por algumas pessoas, como uma das maiores criticas à sociedade japonesas já demonstradas no cinema, escancarando o dilema de pessoas mais jovem passando a desrespeitar os mais velhos. Fora isso, o filme também apresenta ação intensa anabolizada emocionalmente pelo fato de que o enredo envolve adolescentes sendo obrigados a matar uns aos outros. Em suma, não existem motivos para esse filme não estar aqui, devido a sua idéia fantástica e execução primordial. Mas eu estou cauto de que algumas pessoas podem olhar torto para esse filme; nem todo mundo conhece ou gosta de cinema asiático. Algumas pessoas podem dizer “Takeshi Kitano? Quem?” ou talvez “Filminho besta Japonês”. Mas então deixa eu te falar uma coisa interessante: Batalha Real é o filme favorito de Quentin Tarantino que foi lançado desde 1992 até hoje (O filme favorito de Tarantino é documentadamente Três Homens em Conflito, o maravilhoso western espaguete que lançou Clint Eastwood ao estrelato; imagino que exista um filme entre o período que Três Homens em Conflito foi lançado (1966) existe algum outro filme que Tarantino tenha gostado mais que Batalha Real). Você pode ver o vídeo que ele fala os filmes favoritos que ele assistiu aqui. Você vai notar que Tarantino diz que ele sabe qual foi seu filme favorito, e os outros ele não conseguiria colocar em ordem. Outro comentário bacana é quando Tarantino diz “Eu gostaria de ter feito esse filme”. Então, aí está. Batalha Real é o filme que Quentin Tarantino – O sujeito que fez Jackie Brown – queria ter feito. Se isso não é uma porra de um grande elogio, eu não sei o que pode ser.

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Cidade de Deus (2002)

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Um êxito para o cinema brasileiro, Cidade de Deus é a obra-prima do prodigioso Fernando Meirelles. Algumas pessoas compararam o filme com o clássico Os Bons Companheiros. O filme, francamente, merece essa comparação. No início do clássico de Scorcese, o filme começa com um narrador dizendo que sempre quis ser um gangster. Em Cidade de Deus, nosso protagonista não tem escolha senão ir para o crime. E aqui eu faço uma pontuação para dizer que não estou adicionando esse filme a minha lista porque “Eu precisava colocar um filme brasileiro” ou porque “Eu sou patriota”. Nada disso. Eu coloco esse filme aqui porque ele é ótimo; ele é, na verdade, melhor que ótimo. O retrato de Cidade de Deus é absolutamente imparcial: não é um filme que tem heróis ou vilões. Uma das melhores adaptações literárias já feitas no Brasil, Cidade de Deus tem um estilo inconfundível, realismo notável e é certamente um dos melhores filmes da década. Faço aqui também uma reflexão quanto à latente ignorância das platéias de cinema brasileiras. Sim, na época de Cidade de Deus, o filme foi um hit no Brasil. Mas eu não consigo entender porque diabos o público visivelmente se interessou mais pela bobagem que é Tropa de Elite. Tropa de Elite, você vê, é o ápice da hipocrisia em um filme idealizado. É um filme que escolhe um lado, com uma clareza absurda: existe uma imagem idealizada de super-herói real acima de toda moralidade na figura de um ator conhecido, como Wagner Moura. Também existe um dilema que necessariamente se resolve em torno do fato de que os policiais estão certos, e isso é retratado da maneira mais infantilóide possível, pior do que em um livro do Paulo Coelho; não é de se admirar que os bordões viraram memes por aí. Nós queremos fazer um filme de super heróis? Meu Deus, já era hora: vamos transformar os policiais brasileiros em GI Joe. Não tenho absolutamente nada contra isso. Vira problema quando você vende o filme como algo do mesmo escalão que Cidade de Deus, um filme totalmente maduro quanto a seus dilemas morais. Afinal, o filme veio de um livro. E o livro seguiu a regra básica que Tolstoi uma vez disse: “Descobri que a narrativa deixa uma impressão mais profunda quando não se percebe de que lado está o autor”. E como.

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Cidade dos sonhos (Mulholland Drive, 2001) – O filme da década

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O site Rotten Tomatoes diz em sua legenda “Consenso”: “‘Cidade dos Sonhos’ faz pouco sentido, mesmo para um filme de Lynch” e então, descendo um pouco o mouse, a análise de Roger Ebert diz, enquanto expõe um majestoso “4/4”: “Funciona por que Lynch é totalmente descompromissado”. E como funciona. E novamente, nós temos um detalhe importante: Cidade dos Sonhos é um filme atual, que grita “hoje” em todos os cantos. E “hoje”, é “totalmente descompromissado”. Pense no melhor filme de todos os tempos. Qual é o seu filme favorito? O seu filme favorito envolve diálogos dramáticos? O seu filme favorito tem o Al Pacino ou o Marlon Brando? Talvez os dois simultaneamente? Ok, esqueça. Digamos O Cidadão Kane. O Cidadão Kane é inquestionavelmente o filme mais lembrado da história do cinema. Por coincidência, é o filme favorito de Roger Ebert. Certa vez, um idiota pretensioso chamado Michael Thomson quis fazer um estardalhaço gigantesco para dizer que “Ei, eu gosto desse jogo chamado Metroid Prime” ele teve que dizer que “A trilogia Metroid Prime é o Cidadão Kane dos videogames”. Então, certamente isso quer dizer alguma coisa. As pessoas têm um respeito insano por esse filme. E isso acontece por que O Cidadão Kane era humanamente perfeito: toda vez que você assiste a esse filme, você vê que ele é construído como uma caixa de Pandora fechada de todos os lados, com artesanato nas bordas. Mas se existe uma coisa que O Cidadão Kane não pode lutar contra, é o tempo. Você o filme e vê que hoje estamos vivendo em um mundo diferente do retratado por Orson Welles. As pessoas não falam mais do jeito que as pessoas falam naquele filme. Quando A Saga do Tio Patinhas foi lançada, o episódio final continha uma passagem que retratava uma homenagem ao filme. É algo que nós lembramos, achamos ótimo, podemos ver qualquer dia e acharemos ótimo, mas definitivamente não é algo que nós vemos nos cinemas hoje em dia. E, francamente, algo como Cidadão Kane nos cinemas é algo que eu definitivamente não gostaria de pagar pra ver. Cidade dos Sonhos, ouso dizer, é um Cidadão Kane de nosso tempo. Sua composição é absolutamente perfeita para nossos tempos. David Lynch criou um romance glamoroso que subitamente se transforma um mistério hollywoodiano. Será que existe outro filme que fala tão lucidamente – mesmo que involuntariamente – do momento horrível que marcou nossa década? Quem assistiu tentou achar o significado da “caixa azul” do filme, sem muito sucesso. Mas no complicado outono de 2001 em que esse psicodrama foi lançado, eu acho que entendi ele bem demais; até mais do que devia. Cidade dos Sonhos é o bicho papão debaixo da mesa de jantar; é um sonho iludido se transforma em um pesadelo. O triunfo pertence a David Lynch, que já seria um ser mitológico se só tivesse se contentado com já registradas obras-primas: Areserhead, Veludo Azul e Twin Peaks. Ao invés disso, ele foi em frente e usou esse genial roteiro (originalmente, um piloto de série de TV que não foi entendido por burocratas e então rejeitado), aumentando ainda mais sua densidade emocional e adicionando complexidade com substância. Em meio a isso, nasceu uma estrela: a maravilhosa Naomi Watts deu uma atuação intensa e corajosa para o filme. Isso certamente sagra Lynch como um dos melhores diretores de todos os tempos, e também sagra Cidade dos Sonhos como o filme da década. O quê? Você acha o filme perigoso e surreal demais para ser o melhor da década? Bobagem. Essa foi uma década perigosa e surreal. E, com o ar descompromissado empregado, nós temos o filme perfeito para o nosso tempo. Nós mudamos muito, desde O Cidadão Kane. Nos anos 90, nós tivemos Chungking Express e Jackie Brown, que eram os filmes perfeitos para a sua época. De lá pra cá, mullets ficaram bregas e Cidade dos Sonhos se mostra mais afiado. E “hoje” ele é o filme da década. Daqui há alguns anos eu vou olhar Cidade dos Sonhos como olho O Cidadão Kane, O poderoso Chefão, Jackie Brown e Chungking Express. Até lá, Cidade dos Sonhos vai ter a vantagem de ser absolutamente atual. E uma coisa curiosa com o “hoje” da atualidade, é que ele pode durar pra sempre. Claro que “sempre” já não demora tanto quanto demorava antigamente, mas você entendeu a idéia.

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Dogville (2003)

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A melhor maneira de assistir Dogville é sem que você saiba muito sobre o filme. Na verdade, estou recomendando para você agora que, caso ainda não tenha visto esse filme, pare a leitura desse parágrafo e pule para o próximo. Com seus 177 minutos, o filme demora pra começar de fato. Na verdade, é possível dizer que você só vai entender o quão o filme é bom quando o último nome dos créditos estiver subindo. Escrito e dirigido por Lars Von Trier, dos também maravilhosos Dançando no Escuro e Ondas do destino, Dogville é sobre muitos aspectos da natureza humana em geral. Mas certamente o alvo do filme são os Estados Unidos. Existe um poder imenso no filme – não no constatar de fatos sociais, não na alegoria, mas sim nos termos humanos do enredo. A atuação de Nicole Kidman é tocante por sua simplicidade, um retrato de beleza em forma de uma atuação dramática e inteligente. Ele não expressa o ultraje com os dilemas apresentados durante a longa projeção do filme, ao invés disso, fica guardando ele dentro de si, como se estivesse comendo seus fluídos internos. Nós temos então o impulso heróico, mas também vemos um espírito fraco, dentro de uma alma benevolente. Alguns chamaram Dogville de uma alegoria ao cristianismo, mas, mesmo se for, símbolos ainda são fáceis: sua semântica descreve que eles falam por si próprios. Poesia é que é difícil de reproduzir. A poesia que é difícil. Dogville certamente é poesia, e é um protesto ultrajado tão estridente quanto O grande ditador de Charlie Chaplim, e sua mensagem pode se tornar tão duradoura quanto se as pessoas derem uma chance para o filme. O filme luta em tempo integral contra a hipocrisia, e com todos os méritos, Von Trier entrega o filme experimental mais corajoso e denso da década, uma sátira com crítica social das mais… Engraçadas, acredite se quiser.

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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003)

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Cara, eu preciso dizer: sou um fã de Bill Murray. Bill Murray é um sujeito único. Você sabe que você é um sujeito único quando existe uma balada TechnoReggae com o seu nome. E eu também sou um fã de Sofia Coppola. Eu só posso dizer que espero ansioso pela sua próxima empreitada com Somewhere: sem dúvida alguma, ela é a profissional de maior potencial no mercado cinematográfico. Nos anos 70, Francis Ford Coppola criou o filme perfeito para época: nós tínhamos uma cabeça de cavalo, Marlon Brando fazendo o papel mais icônico de sua carreira e tínhamos um membro da família sendo baleado de maneira que jamais tinha sido vista antes. O meu ponto é que O Poderoso Chefão era um filme absolutamente perfeito pra época que foi lançado, com um ritmo cinematográfico assombroso, e que falava de um tema que, na época era algo que ainda estava fresco na consciência coletiva. Muitos anos depois, David Chase iria fazer uma genial paródia do conceito, criando Família Soprano, que lida com aspectos como o dia-a-dia de um mafioso que vai a uma psiquiatra (e, com esse conceito, estou seguro quando afirmo que o seriado foi a melhor coisa que o ocidente produziu no século XXI até agora). E quando algo assim acontece você sabe que os tempos mudaram. Em 2003, Sofia Coppola criou algo muito próximo do filme perfeito para nosso tempo: um filme leve, moderno, e mais íntimo ao público. Bill Murray e Scarlett Johanson fazem um dos casais mais memoráveis da história do cinema, em um conto sobre várias coisa, e nenhuma coisa, ao mesmo. É sobre um estranho no ninho, é sobre a impessoalidade da sociedade japonesa, é um conto de amor, é sobre tomar Whisky num bar que tem uma banda de Jazz. E lembre-se: “For relaxing times, make it Suntory Times”.

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Obs: Vocês sabem o que Bill Murray fala no ouvido de Scarlet Johanson no final do filme? “I’d totally do you”. É, eu sei. lulz.

Eureka (2000)

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Com sua metragem de quase quatro horas, o longa Roadie de Shinji Aoyama (que é uma homenagem sutil ao cinema de John Ford), tinha pouco apelo para as massas – não que isso seja muito necessário para se fazer um grande filme. Além disso, o filme é uma profunda viagem filosófica que tem como tema os efeitos pós-traumáticos do seqüestro de um ônibus. No fim das contas, acaba sendo uma poderosa e impactante metáfora sobre o tipo de medo, um novo e diferente medo, que permeou essa década com tanta força. Eureka tem por primazia conseguir fazer uma reflexão profunda acerca da complexa inserção do homem na sociedade em que ele vive, após uma experiência traumática, tal fato é vivido no filme pelo excepcional ator Koji Yakucho,que consegue através de interpretação concisa demonstrar essa metamorfose apresentada pela personagem ao longo da obra.Para reforçar sua densidade dramática, porém sem estigmatizá-la a fotografia do extraordinário Masaki Tamura possui papel fundamental apresentando uma composição em preto e branco concebida de maneira única representando o estado interior daquele conjunto de pessoas que se encontram imersas nesse mundo sem brilho.Outro destaque para esse filme vai para a influências positiva e bem utilizada do clássico cineasta japonês Yasujiro Ozu, já que o filme trabalha magistralmente com a composição de planos ao nível do chão,enquadramentos em perspectiva, ambiente familiar tradicional e a intromissão da tecnologia em seu meio,utilização de planos fixos marcados pelo silêncio atentando-nos para a solidão sentida por tais personagens especialmente na figura de Kozue e Naoki o casal de crianças órfãs,cuja mãe os abandonou e o pai faleceu. Além é claro da bela trilha sonora que nos fascina pela sua composição melódica sem ser piegas. Em poucas palavras, Eureka provavelmente não é pra você se você é relapso ou simplesmente não gosta de filmes muito longos, mas, caso contrário, junte-se a mim e vamos chamá-lo de um dos melhores filmes da década.

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Império dos sonhos (INLAND EMPIRE, 2006)

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“Coloque o relógio. Acenda o cigarro, dobre a seda e use o cigarro para fazer um buraco na seda. Depois, coloque o seu olho no buraco”. Assim que você colocar o seu olho no buraco, você vai deixar seu corpo e começar a cair num abismo sem proporções – alguém na indústria do cinema de fato quer lhe mostrar até o fundo da toca do coelho. Na verdade, eu diria que essa é uma metáfora pra assistir filmes, e aqui, nesse filme que tem um fetiche absolutamente cleptomaníaco por criatividade, nós novamente entramos na mente de David Lynch, uma mente cheia de mistérios. Império dos Sonhos provavelmente é o maior mistério da carreira de Lynch. Algumas pessoas dizem que é o terceiro e conclusivo ato da “Trilogia de Los Angeles” de David Lynch, cujos capítulos anteriores seriam A Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos. Algumas pessoas dizem que é o nono capítulo de Rabbits (se você estiver interessado em desvendar Rabbits, boa sorte! você pode assistir todos os episódios no youtube, assista o primeiro clicando aqui). Outras ainda dizem que são retalhos de toda a carreira de Lynch misturados em um filme de três horas. Bem, eu não poderia me importar menos sobre o que é Império dos Sonhos, ou qual é a resposta para todos os mistérios de Império dos Sonhos. Eu só estou interessado nas três horas alucinatórias desse filme. Lynch traça uma jornada por sua mente, e pela mente de seus personagens enquanto mais uma vez entrega um comentário sobre Hollywood. Qual é o comentário? Bem, eu diria que varia de pessoa pra pessoa. Império dos sonhos se apresenta como um filme de Hollywood, e um filme sobre Hollywood, e faz homenagens a todos os filmes favoritos do diretor, como Crepúsculo dos Deuses, 8 ½, Persona, O Iluminado, entre outros. O filme também é, de certa maneira, sobre o ofício dos atores. E para um filme com um tema assim, Laura Dern entrega a provável melhor atuação da década. Eu não tenho a menor idéia de como ela conseguiu encapsular, com tamanha perfeição, todos os desejos de Lynch para o filme. Na verdade, de certo modo, Dern entrega diversas atuações, de papéis completamente diferentes entre si, todos com sua particularidade e graça. Talvez não seja apropriado dizer muito sobre este. É o suficiente dizer que Império dos Sonhos abre e contrai sua mente quando você o assiste – e você vai continuar assistindo o filme, de certa maneira, mesmo depois que você sair da sala de cinema. Na verdade, ele ainda está passando na minha cabeça. Talvez continue pra sempre.

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INTERMISSION

Bem, vamos fazer uma pequena pausa aqui. E já que fizemos uma pausa, eu resolvi dividir com vocês o que eu acho ser a melhor cena de um filme nessa década. Foi uma decisão difícil, eu devo admitir. Afinal, nós tivemos grandes Posted Imagecenas, como a já lendária cena “Milkshake” de Sangue Negro ou a cena do cartão de Psicopata Americano. Chamaram-me a atenção também diversas cenas não muito impactantes, e mais reflexivas, como Bill Murray observando as luzes de Tóquio em Encontros e Desencontros, ou as cores desaparecendo (ou melhor dizendo, as memórias) da mente de Joel enquanto ele conversa com uma projeção de sua amada Clementine. Isso sem contar da cena dramática da perda de um dedo em Lula, filho do Brasil (isso foi uma piada). Mas eu acho que provavelmente a melhor cena da década acaba por ser um empate: por um lado, eu acho que podem ser os dez minutos finais de Império dos Sonhos, onde não existe mais nenhum resquício de lógica, mas eu também gostei muito dessa cena de Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000):

Esse filme, que obviamente não teve a atenção que deveria ter conseguido, é um maravilhoso drama estrelado pela cantora Björk, e eu realmente gostaria muito de ter o incluído nessa lista, mas o fato é que o resultado ficou meio inconstante no fim. Mas ainda, assim, essa cena é um ótimo segmento musical, e mostra bem o otimismo e a graça da protagonista ao encarar sua deficiência. Então, é, provavelmente é isso. Esse segmento musical fantástico de Dançando no Escuro e os dez minutos finais de Império dos Sonhos. Alguns dos mais valiosos fotogramas que você pode conseguir por aí.

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Infernal Affairs (無間道, 2002)

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Em 2006, Martin Scorcese lançou o filme com uma das trilhas sonoras mais afiadas de todos os tempos: Os infiltrados. Não me entenda mal, aquele filme era ótimo. Mas ainda assim, Infernal Affairs, filme cujo roteiro deu origem a Os infiltrados, de algum modo consegue ser melhor do que a versão por Martin Scorcese. As dificuldades da transposição de um roteiro para uma adaptação para o ocidente são muitas, é um fato a se constatar: alguns dilemas morais e alguns conceitos se perdem na tradução. A idéia do filme, e como as coisas se desenrolam, é genial. O filme é sobre um gangster que é na verdade um policial e um policial que é na verdade um gangster. O filme tem uma complexidade emocional que raramente é vista em filmes de policiais. Um fato curioso do filme é que as maiores estratégias não se tratam de técnicas de kung-fu vindas de um filme do Bruce-Lee: a maior prova de astúcia dos personagens tem a ver com usar celulares. Então, no fim do dia, esse é um filme extremamente inteligente e moderno, que ao mesmo tempo invoca dilemas básicos que são padrão nos cinemas orientais. Dirigido por Andrew Lau e Alan Mak, é um filme que, além de ser um ótimo thriller de ação, suspense e principalmente desenvolvimento emocional, também funciona como um filme metafórico: Tudo no filme faz que você pense que os personagens estejam passando por tempos curiosamente irônicos, tristes e sem satisfação – a situação de estar fingindo ser o que não é. Suponha que você é um dos personagens, e imagine isso: você está em outro território, só pela honra que você adquiriu entre seus companheiros. E lá, você é obrigado a agir como alguém que não é. E depois, seus superiores ainda consideram seu trabalho medíocre. O que pode acontecer é que você pode continuar disfarçado pra sempre – deixe que a mentira se transforme na verdade, nunca usar a escuta escondida, vire o que você estava fingindo ser. Pode valer a pena. Para os personagens de Infernal Affairs, talvez isso não se aplique tanto. Mas ainda é o tipo de sabedoria que você encontra em restaurante indianos de curry. Um clássico de Hong-Kong.

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Não estou lá (I’m not there, 2007)

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Quem é Bob Dylan? Nós costumamos falar de Bob Dylan como se ele fosse real. O Trailer de Não estou lá mata a charada pra gente: “Ele é todo mundo” e “Ele não é ninguém”. O mais proficiente compositor americano do século XX é um mistério do tipo que não se faz mais. Não estou lá é um sucesso por uma boa quantidade de motivos. Primeiramente, provavelmente é o filme biográfico mais intimamente pessoal que eu já vi: se existe uma coisa que fica certa depois de assistir o filme, é que Todd Haynes sabe exatamente do que está falando. Depois, o filme é um monstro de interpretação, no melhor dos sentidos que eu posso colocar. Vários atores interpretam Bob Dylan, e felizmente Cristian Bale e o finado Heath Ledger (ambos no papel de Dylan) não estão em papéis caricatos e, francamente, basicamente idiotas que eles estavam em certo filme que provavelmente você viu. Não vou nem comentar o fato de que Cate Blanchet literalmente vira Bob Dylan. E ademais, o filme traz um retrato com muita alma dos anos 60: era a última década em que, se você era um ativista e queria mudar algo, de fato fazia sentido tentar. Uma peça de cinema densa como a personalidade mutante do cantor folk preferido de todo mundo, talvez ela só seja entendida por alguém com pleno conhecimento sobre o mesmo. Essa é uma das raras vezes que se aplica a regra (que em grande maioria das vezes é um idiota tentando fazer com que um filme ruim magicamente se torne bom) que diz: “Não é que o filme é ruim, você que não entendeu”. Então vá conhecer Bob Dylan e só depois assista a esse filme. Regras básicas: se mantenha jovem pra sempre, diga como é não ter uma casa, como um desconhecido completo, constate que os tempos estão mudando, descubra se Hurricane era culpado, e se algum dia você for a Highway 61, você provavelmente vai ver um cara, sentado em um banco ligeiramente sujo, com uma garrafa de uísque na mão. Não fale com ele. Ele é um babaca.

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O brilho eterno de uma mente sem lembranças (The eternal sunshine of the spotless mind)

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O “cara de borracha” Jim Carrey tem uma carreira surpreendentemente cheia de altos e baixos. Ele fez ótimos filmes como O Show de Truman, que era uma comédia/drama com referências a 1984 de George Orwell, ele interpretou o comediante Rockstar Andy Kaufman em O mundo de Andy, e também fez comédias puras impagáveis como O Mentiroso. Mas ele também fez idiotices como Batman Eternamente, O todo-poderoso e (céus) O número 23. O que eu posso dizer então é que Jim Carrey pode se dar bem tanto em uma comédia quanto em um drama, desde que você saiba como utilizar o talento nato do canadense. Tenha como exemplo Arnold Schwarzenegger: o sujeito protagonizou alguns dos piores filmes de todos os tempos. E mesmo assim, mesmo naquele canastrão, havia talento, e James Cameron sabia direcionar aquele talento. Para a direção maravilhosa de Michel Gondry e o roteiro único e brilhante de Charlie Kaufman, não foi problema colocar Jim Carrey nos trilhos certos. O filme acaba por ser um conto sobre duas pessoas bem diferente de todos os outros, com momentos bem “Mindfuck”. O que também é curioso sobre o filme é o que a atriz falou a respeito do filme – que nesse filme, Kate Winslet faz o papel de Jim Carrey, e Jim Carrey faz o papel de Kate Winslet. Como Joel Barish, Jim Carrey é como se fosse um par romântico em uma comédia em que ele é protagonista: uma pessoa normal, e não um sujeito super animado e com um dom incrível de ser engraçado espontaneamente. A diferença básica é que o personagem, além de ser descrito como uma pessoa normal, também tem a profundidade emocional de uma pessoa normal. Enquanto isso, a Clementine Kruczynski é uma dessas pessoas absurdamente animadas e engraçadas espontaneamente que normalmente aparecem como os protagonistas atuados por Carrey, com a diferença que, ao invés dos personagens habituais de Carrey, existe profundidade pra Clementine. Em geral, o filme (não me faça escrever o nome de novo) é uma peça inteligente de entretenimento povoada por mindfuck e estudo da alma humana, tudo isso mérito de Charlie Kaufman. E o estilo do filme não fica pra trás: você sabe que um filme é pelo menos interessante de forma tangível quando existe um site real sobre a ficção do filme. Recomendado, precisamente por ser único.

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O hospedeiro (怪物, 2006)

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Uma confissão: eu amo filmes de monstros. Sou um entusiasta de Godzilla, King Kong e, é lógico, o supremo Gamera. No entanto, nos últimos tempos, eu andei tendo algumas amarguras. Já faz um bom tempo que a indústria se desinteressara por esse tipo de filme, mas foi em história recente que tragédias começaram a acontecer. Godzilla, de 1998 (por Rolland Emmerich, um dos maiores idiotas que a indústria cinematográfica já concebeu) foi o suicídio desse ícone no cinema ocidental, com um ritmo absurdo e nada da leveza da maioria dos filmes do famoso lagartão. Acho que certo alguém tem palavras melhores que as minhas pra descrever o quão ruim é esse filme. Então, por um bom tempo o interesse pelo gênero continuou a decair. Em 2005, nós tivemos King Kong de Peter Jackson. Eu não posso dizer que foi um filme ruim, mas eu também não posso dizer que eu aplaudi de pé. É que no fim das contas, eu achei que era muito mais um filme sobre Jack Black sendo Jack Black e insetos gigantes e nojentos do que um filme sobre um macaco gigante se apaixonando por uma garota. Claro que tinha isso também, mas… Sei lá. Talvez tenha sido o impacto de ter visto Kong em computação gráfica, talvez eu gostasse muito daquela roupa ridícula que eu podia ver o zíper. Mas então, também é bom saber que algumas coisas boas aconteceram. Um pouco antes do Kong de Peter Jackson, em 2004, saiu Godzilla: Final Wars, um divertidíssimo filme que capturava a alma dos filmes antigos, enquanto tinha absurdos absolutamente conscientes por toda parte. Eu amei o filme. Mas a dificuldade que eu tive pra achar um DVD do filme me fez pensar que talvez estivesse na hora do gênero se atualizar, não só por causa do meu egoísmo, mas por questões práticas de mercado. Em 2008, chegou Cloverfield, que conseguiu ressuscitar o gênero para as massas. Eu gostei muito do filme, que focava mais nos seres humanos, do que no monstro, o joguete é que dizer que o filme é “realista” é uma prova cabal do sarcasmo consciente que envolve todos os bons filmes do gênero. Isso faz pensar em um futuro brilhante pro gênero. Então, apesar de Cloverfield ter sido muito bacana, ainda assim eu acho que é inegável constatar que o melhor “filme de monstro” da década é O hospedeiro, produção sul-coreana dirigida por Bong Joon-Ho. O filme foca nos humanos, tem o primeiro monstro em CGi que se apresentou adorável aos meus olhos, e também acaba por ser incrivelmente político. Uma maravilha de filme, O Hospedeiro não podia falar nessa lista.

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O novo mundo (The new world, 2005)

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Você sabe qual era o tema favorito de Marlon Brando? Os direitos dos índios americanos. Em diversas entrevistas ele puxava o assunto, e falava de suas iniciativas filantrópicas. Como todo bom ativista para uma causa, isso fez com que Brando se tornasse uma pessoa que odiava ter laços com o consumismo, e conseqüentemente, com as regras de Hollywood; esse desdém por Hollywood também tinha raízes no glamour por filmes de John Wayne, nos quais os índios eram retratados como vilões, e eram assassinados pelos mocinhos, muitas vezes. Quando Marlon Brando ganhou seu primeiro Oscar por Sindicato de Ladrões, ele compareceu na cerimônia para pegar o prêmio. Muito tempo depois, em uma entrevista, ele declararia: “Eu já cometi muitos erros na minha vida. Esse foi um deles”. Quando ele ganhara o Oscar por sua atuação em O Poderoso Chefão, ao invés de comparecer á cerimônia, ele enviou uma índia representar sua presença na festa, e na ocasião, sob as instruções de Brando, ela discursou sobre a forma com que Hollywood maltratava os índios. Em 1995, houve uma boa oportunidade de fazer um ótimo longa sobre o tema, com Pocahontas da Disney. A história de Pocahontas é um fato histórico, deveras interessante. Se trata de um índia que casou com um inglês chamado John Rolfe, e que tinha um possível envolvimento com um capitão da marinha inglesa chamado John Smith. Quando o fato se alastrou o suficiente, Pocahontas, efetivamente, se tornou a primeira celebridade da América, bem antes do consumo de drogas ser algo natural no continente. Com o filme da Disney, as coisas definitivamente não deram certo. Vou ser gentil: o filme era um desastre. No entanto, com O novo mundo, esse conto finalmente faz justiça. Eu não sei se Marlon Brando iria gostar de O novo mundo se ele tivesse tido uma chance de assisti-lo (Deus tem um senso de humor engraçado: Brando morreu no ano anterior ao do lançamento do melhor filme envolvendo o tema). Eu não sei se Marlon Brando gostaria de O novo mundo; eu só sei que O novo mundo é um filme que merece ser visto por todos. Ao passo que o romance dos protagonistas nunca e ajudado pelas engrenagens do filme, o melodrama nunca é indulgente, e tudo isso leva a um clímax que você nunca vai esquecer enquanto viver. Ou talvez até depois de morrer. Quer dizer, ninguém garante essas coisas pós-vida. Fale de O novo mundo para Marlon Brando caso você chegar lá antes de mim.

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Psicopata Americano (American Psycho, 2000)

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Ah, Psicopata Americano. Esse é um grande filme. Nós temos aqui uma adaptação do livro homônimo de 1991. O filme consegue encapsular completamente o clima satírico e ao mesmo tempo cheio de suspense do livro. Nós temos também aqui um Christian Bale que é simplesmente um selvagem em cena, na melhor atuação de sua carreira até agora (ele é um grande ator, apesar de escolher uns projetos ruins e ser meio doido da cabeça). O filme saiu em meio ao boom da internet, e durante o frágil tempo da reflexão sobre os apetites capitalistas, e o filme caiu como uma luva. A produção ganhou uma dose de notoriedade indesejada quando Leonardo DiCaprio cogitou em fazer dela seu primeiro grande trabalho pós-Titanic, mas eu duvido que DiCaprio conseguisse fazer o que Bale conseguiu aqui. A iniciativa teria significado a dispensa, sem cerimônias, da já contratada Harron (Um Tiro para Andy Warhol) e do protagonista Christian Bale. Mas DiCaprio perdeu o interesse pelo projeto de uma hora para outra, de modo que ele pôde seguir adiante conforme o inicialmente planejado (mas sem o orçamento substancialmente elevado que o envolvimento de DiCaprio teria garantido). O protagonista continua sendo o quintessencial “yuppie desalmado” Patrick Bateman, um monstro de vazio materialista que adora Donald Trump, cheira pó, faz jogadas ilegais na Bolsa e gasta dinheiro a rodo.Seu monólogo inicial detalha os passos de sua rotina diária de esfoliação de pele. Patrick não tem gordura corporal – e nem poderia, em vista dos milhares de abdominais que faz diariamente enquanto assiste ao O Massacre da Serra Elétrica, para animar o ambiente frio de seu apartamento todo branco no Upper West Side. E juntando todos os ingredientes (o personagem fantástico, a sátira e o enredo básico do romance original), nos temos aqui uma peça de cinema entusiástica, cheia de algumas das cenas mais escatológicas de toda a década.

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Obs: você absolutamente TEM que ver o trailer desse filme. É provavelmente o melhor uso de uma música dos Beach Boys em qualquer lugar. Sério, estou nomeando esse trailer o “Trailer da década”!

Sangue Negro (There Will be Blood, 2007)

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Começa com um sujeito achando petróleo. Termina com, a provável frase mais icônica do cinema que utiliza a palavra tão anti-climática “Milk-Shake”. Mas Sangue Negro é bem mais que um frase de efeito. No processo, esse sujeito ganha o mundo e perde sua alma, se é que ele tinha uma. O mérito desse filme, Sangue Negro, vai ao diretor Paul Thomas Anderson, e o ator ganhador do Oscar Daniel Day-Lewis, que retrata brilhantemente o magnata Daniel Plainview, que é a encarnação da natureza sombria e egoísta humana. Mas, sendo justo, o maior mérito vai a Anderson, que idealizou a re-imaginação do filme Oil!, que se tornou muito mais que o material original, se transformando em uma super-produção deliciosamente sobrecarregada de pesquisa e valores técnicos, com um timbre sombrio que prova que a nova leva de Hollywood merece respeito, o suficiente para juntar-se ao panteão de clássicos imortais. Também é uma critica oblíqua ao capitalismo selvagem de George Bush, com a política “Aos vencedores, as batatas”, e Sangue Negro fala alto, e tem a força de um chute na costela. Além do que, o filme em si, como um todo, é como um trabalho arquitetônico de cinema. A contra-capa do DVD do filme cita uma frase de uma critica: “Um dos mais completos filmes americanos já feitos”. E não existe descrição melhor para o filme: cada diálogo, cada ato, cada movimento do enredo, cada trejeito soma qualidades para um produto final sem precedentes. Day-Lewis é a estrela, mas não é o único ator brilhante do filme; todos os atores estão encarnando personagens perfeitamente pertinentes e interessantes para enriquecer a trama. O filme consegue capturar o momento histórico em que, não só os estados unidos, como também o mundo todo se tornou um lugar mais corporativo, e foi criada muita da cultura que nós conhecemos. Por fim, também fala de teologia e as barreiras emocionais e lógicas de um ser humano. Como o trabalho de um cineasta visionário, Sangue Negro definitivamente o filme é um dos maiores filmes já feitos em todos os tempos.

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Synecdoche, New York (2008)

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Syncdoche, New York é o filme favorito dessa década para Roger Ebert. Não é pra menos: o talento de Charlie Kaufman, que foi progressivamente desabrochando desde Quero ser John Malkovich se maturou a cada momento dessa década, e culminou em Synecdoche. O filme é a primeira incursão de Kaufman dirigindo um filme; antes, ele só havia feito roteiros. E como, seu filme, ele deixa uma marca característica impressionante, com uma ambição gigantesca. Kaufman agiu em Synecdoche como um escritor que quer colocar todas as suas idéias em seu primeiro livro para o caso de ele nunca mais escrever outro. Synecdoche consegue ser um filme absurdamente bem-feito em todas as áreas técnicas, até mesmo ao superar o propósito de sua fantástica premissa, a qual eu não pretendo dizer muito para você, sem que você tenha visto o filme. O caso é que o estudo da alma de Kaufman é algo que faz você se identificar, e eu não tenho certeza que você vai se identificar se eu lhe contar muito. É difícil falar desse filme sem falar muito, ao mesmo tempo. A atuação do filme, e pudera – é um filme que começa sendo aparentemente realista, mas depois sua ambição se expande para outros terrenos (fantasia, complexidade, caos), que, curiosamente, podem não existir de fato se você quiser. O personagem de Philip Seymour Hoffman está passando por deterioração do corpo, como todos nós passamos, e então, pouco a pouco perde de vista quem é ele para outras pessoas, que impressões ele causa, como muitos de nós um dia também fazemos. Basicamente, ele começa a sentir que não sabe mais quem é ele mesmo, e esse processo é mostrado dolorosamente, e precisamente. Kaufman assim cria um dos filmes mais perceptivos filmes sobre como nós vivemos nesse mundo, sobre a condição humana. Ao passo que esse é seu debute como diretor, a estrela do show é o roteiro. E não pense que eu estou menosprezando a direção: é que Kaufman suou sangue pra criar o roteiro, acredite. E, pensando bem, nesse estágio de maturação da filosofia de trabalho de Kaufman, provavelmente o único sujeito que poderia dirigir o filme era o próprio Kaufman. Afinal, só ele poderia entender o filme antes de vê-lo. A não ser, talvez, alguém que já tenha ido a um nível de complexidade maior em um filme – e isso é difícil – ou o mestre dos magos.

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Um homem sério (A serious man, 2009)

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Os irmãos Coen, sem dúvida alguma, são dois dos mais talentosos cineastas da atualidade. Sempre em atividade, seus filmes têm características próprias, detalhes em todos os cantos, e sempre estão permeados pelo que há de melhor no mundo das atuações. Dos filmes que os irmãos Coen foram responsáveis nessa década, eu me sinto seguro ao dizer que Um homem sério foi o mais completo de todos. O filme se passa no ano de 1967, e fala de um professor que vê sua vida desmoronar quando sua mulher ameaça deixá-lo porque seu irmão se recusa a ir embora de sua casa. Essa incursão dos Coen é uma hilariante visão sobre temas sérios de nossa sociedade, como idéias de estilo de vida e fé. O filme, de certo modo, é uma reflexão sob a própria origem judia dos diretores, e fica cutucando na ferida do dilema de nós perguntarmos coisas que os lideres de comunidades religiosas não conseguem responder. As matrízes filosóficas de Um homem sério são sua força e orgulho, junto a inteligência do script.  Assim como nos recentes trabalhos dos Coen, Onde os fracos não têm  vez e Queime depois de ler, aqui também os Coen não deixam o filme sob o controle do  espectador, se importando com o que realmente importa para fazer bom cinema. Então nem pense em sumarizar o roteiro, o filme foi construído assim. Eu já mencionei que esse filme é impressionantemente denso e engraçado? Mas não é um daqueles filmes exagerados, que fazem você rir todo tempo, e sim um daqueles mais contidos, para que você possa de fato acreditar no ser humano que você está vendo na tela (na verdade, essa lista tem vários filmes assim). Esse tipo de filme pode ser engraçado, ainda mais quando ele se mostra extremamente dramático. Esses filmes que tratam de uma história triste podem ser muito engraçados, pensando bem. Os Coens fizeram uma escolha muito diferenciada de atores, como Stuhlbarg, que trouxe uma interpretação muito convincente ao filme. Eu aposto que, do jeito que o filme é estruturado, e tão particularizado, ele já estava nos planos dos Coens por muito tempo. Afinal, o enredo encontrado em Um homem sério pode parecer um tanto fora de contexto. É sobre um dentista judeu que descobre a palavra “Socorro” atrás de seu molar direito. Lembre-se que muitas parábolas contêm sua moral apenas nas suas linhas finais.

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Vendredi Soir (2002)

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Provavelmente a melhor obra da diretora francesa Claire Denis, Vendredi Soir é a adaptação de um livro homônimo de Emmanuele Bernhein, e é o conto de uma garota decidida a morar com seu namorado, mas é abordada por um estranho misterioso. O que temos aqui é um conto de amor diferenciado, e também um ácido estudo de deslocação urbana, que só pode chegar a patamares tão impressionantes devido à extrema perícia de Claire Denis. Ela, em conjunto com a especialista em fotografia cinematográfica Agnès Godard, conseguem capturar as emoções ocasionadas pelos dilemas dos personagens de maneira discreta, e cheia de estilo. Onde os filmes americanos gostam de mostrar o quanto eles são conscientes sobre temas como o amor e paixões de uma noite só, esse filme adora brincar com o exato outro lado da moeda. A protagonista, Laure, interpretada pela linda Valerie Lemercier, se vê presa em um mundo de incertezas, ao encontrar o tal sujeito misterioso, Jean, interpretado por Vincent Lindon que entrega a melhor interpretação de sua carreira. Claire Denis, depois de algum tempo, conseguiu acumular a fama de ser a diretora que produz as cenas mais sensuais do cinema contemporâneo, e essa fama não vem de graça. Enquanto Vendredi Soir provavelmente ainda tem as cenas mais quentes da carreira da diretora, combinada com os melhores personagens, você provavelmente pode conferir antecedentes maravilhosos e sensuais como Bom Trabalho. Vendredi Soir, na verdade, não é especialmente sensual, enquanto se preocupa em contar uma história simples com muito estilo. De um modo ou outro, a recomendação é altíssima. Uma das melhores pedidas do cinema francês.

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Posted ImageAgora, alguns filmes que eu não cheguei a colocar na lista, mas também são ótimos, e eu gostaria de dar uma palavrinha sobre:

Zodíaco (Zodiac, 2007): Robert Downey Jr. sai de sua taverna favorita para estrelar esse maravilhoso e amedrontador filme de detetive, dirigido por David Fincher. Zodíaco é uma ótima viagem em uma exploração nada menos que detalhista de uma obsessão, e os crimes de um maníaco que realmente existiu na Califórnia dos anos 60.

Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002): Eu não vou mentir que “adorava” Adam Sandler no Saturday Night Live, porque, francamente, nunca tive tempo de ver piadas políticas de outro país. Ao invés disso, odeio quase todos os filmes do sujeito. Paul Thomas Anderson aqui faz uma mágica intensa ao criar um ótimo filme, profundamente tocante com o cretino. Não podia se esperar menos do diretor de Magnólia.

Oldboy (2003): A fábula do homem sem memória é uma grande metralhadora de ultrajes, dadas por um sujeito que busca vingança com mais intensidade do que qualquer outro na história do cinema. Um filme impactante, e se tudo der certo, Will Smith e Steven Spielberg NÃO vão fazer um Remake. Graças a Deus.

Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001): O último grande filme de Robert Altman é ambos um escabroso estudo profundo sobre classes sociais e também uma grande charada que faz da pergunta “Quem sou eu?” um ponto central. Com muito estilo e personalidade, Altman revisita sua paixão pelo poder das hierarquias em nossa sociedade.

Um Conto de Natal (Um conte de Noël, 2008): Qualquer pessoa consegue fazer um filme sobre como feriados podem fazer com que famílias se separem ao invés de se juntar: até o Selton Mello fez um. Mas você precisa de um sujeito realmente grandioso como o francês Arnald Desplechin para fazer que o filme se torne uma verdadeira obra-prima cinematográfica, salpicada da mais intensa meditação sobre moralidade.

Match Point (2005): Mais um grande filme do diretor de clássicos como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan, o mais icônico judeu do cinema, Woody Allen. E você sabe que não é uma lista de melhores filmes se você não falar pelo menos um pouco de um filme de Allen. O que eu posso dizer é que a mudança de ares (sem Big Apple dessa vez) é refrescante, e que Scarlett Johansson provavelmente vai ser lembrada como uma das grandes atrizes do nosso tempo antes mesmo que você consiga terminar de falar “Game, Set & Match”.

Tetro (2009): O mais recente filme de Francis Ford Coppola sofreu uma grave incompreensão da crítica e até mesmo do público. Mas é inegável que a jornada incrivelmente pessoal e profundamente psicológica do jovem Tetro é nada mais, nada menos, que ótimo cinema. Ao passo que muitos cineastas gostam de se mover para terrenos maiores e mais caros com o passar do tempo, é aplaudível ver Coppola indo em terrenos cada vez mais particulares e pessoais.

As Bicicletas de Belleville (Les Triplettes de Belleville, 2003): A melhor animação ocidental da década é uma história simples sobre um garoto que sonha ser um campeão de ciclismo. No caminho, nós nos deparamos com um dos mais criativos estilos já vistos em qualquer desenho. Sem dúvida alguma, tem mais alma que qualquer filme Pixar por aí.

Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenembaums, 2001): Uma comédia de Wes Anderson (do brilhante Rushmore), que esbanja maturidade por todos os cantos. Aqui, nós acompanhamos a tocante e engraçada jornada de um clã caindo aos pedaços, tendo como protagonista um triunfante Gene Hackman. Eu adoraria que existissem mais comédias sinceras e despretensiosas como essa por aí.

Desejo e Obsessão (Trouble Every Day, 2001): Novamente o chefe de obras do sucesso é a francesa Claire Davis, e aqui, ele mostra uma fantástica epopéia super violenta sobre vampiros, isso bem antes da moda Crepúsculo pensar em chegar aos cinemas. Aqui a melancolia, a violência e até as partes mais picantes são mostradas sem cortes, para criar um dos melhores filmes de vampiro de todos os tempos.

Agora, alguns outros filmes muito bons, mas não suficiente para eu dar uma palavrinha:

Femme Fatale (2002)

Filhos da Esperança (Children of Men, 2006)

Antes do pôr do Sol (Before Sunset, 2004)

O Segredo de Brokeback Montain (Brokeback Montain, 2005)

A Morte do Senhor Lazarescu (Moartea domnului Lăzărescu, 2005)

Reis e Rainha (Rois et Reine, 2004)

Canções do Segundo Andar (Sånger från andra våningen, 2000)

Miami Vice (2006)

I ♥ Huckabees (2004)

Para Sempe Lilya (Lilja 4-Ever, 2002)

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E, finalmente, filmes que eu realmente não quis mencionar, e que não fazem parte dessa lista:

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)

Avatar (2009)

Watchmen (2009)

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2008)

300 (2007)

A trilogia Senhor dos Anéis

A série Harry Potter

A “saga” Crepúsculo

PS: Qualquer coisa relacionada de maneira tangível com qualquer produto da franquia Star Wars nessa década não chegou a essa lista, por uma quantidade infindável de motivos, sendo o mais proficiente deles o fato de que todos os filmes novos de Star Wars foram uma bela porcaria.

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É. Parece que nós terminamos por aqui. Um grande problema em aceitar que essa década já terminou, é que nós não poderemos fazer novas listas com base nos filmes lançados esse ano. Não que realmente existam grandíssimas Posted Imageexpectativas para esse ano, de qualquer jeito. O único filme que eu realmente estou de fato esperando é Somewhere, o novo filme de Sofia Coppola. Inclusive, algumas pessoas acham que eu encho demais a bola de Sofia, ela sendo apenas uma iniciante. Bom, talvez. Mas o problema é que eu não consigo deixar de amar todos os filmes que ela fez até a agora. O primeiro, As Virgens Suicidas, de 1999, era um drama que esbanjava maturidade e tinha uma espécie de atmosfera estranha e interessante. Encontros e Desencontros, bem, está nessa lista. E Maria Antonieta, apesar de ter sido recebido pela crítica de maneira injusta, é justamente o tipo de filme que eu defendo até debaixo d’água: se você perguntar pra mim, é um romance histórico com liberdade artística no mesmo estilo de Amadeus, o filme sobre Mozart de 1984.

Enfim, existem outras peças promissoras aqui e ali, mas de fato eu duvido que algo realmente grandioso aconteça agora em 2010.

Eu espero que os diretores dessa “nova década” entendam a mensagem que caras como David Lynch estiveram tentando passar, e continuem a produzir filmes preocupados em fazer o expectador “sentir”, se não necessariamente “entender”. É uma pena que, para essa década, nós tenhamos sentido a perda de tantos mestres. Akira Kurosawa morreu em 1998; Stanley Kubrick, em 1999. Nós, pouco a pouco estamos tendo que encarar esses fatos e procurar novos e vibrantes talentos. Apesar de 500 dias com ela não ter entrado nessa lista, eu fico muito, muito contente com o grande destaque que foi dado para um filme Indie na “mídia especializada”, e apesar das notícias não tão animadoras de que o diretor Marc Webb vai dirigir um filme do “amigão da vizinhança”, eu ainda dou muito apoio pra carreira de um cara assim, que começou genuinamente Indie.

Também dignos de nota são talentos prestes a aflorar como David Gordon Green, que fez filmes que ficaram muito próximos de ser ótimos, mas por um motivo ou outro, acabaram ficando incompletos, como Segurando as Pontas http://www.hcgbrasil...0/02/imagem.bmpe Prova de Amor (pensando o caso, David Gordon Green é um tipo de Goichi Suda do cinema, lol!), e eu aposto qualquer grana do mundo que um de seus filmes vai ser um dos melhores da nova década.

Ei, como sempre, um brinde ao futuro. Muito terrorismo, capitalismo, socialismo e qualquer coisa que termine com “ismo” pra todo mundo (sim, você entendeu a piada). E lembre-se: o capitão planeta acredita em você.

- Pato Donald McPato (Pato Donald McPato tem idéias para três filmes: um se chama ラブホテル, o outro se chama so cool vampire flick, e o outro você pode conhecer ao deixar um recado para ele em seu e-mail, e então ele vai te responder com um e-mail tão psicologicamente brutal e amedrontador que você nunca, jamais, em toda sua vida, vai se esquecer)

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#2 Kodama

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Posted 10/02/2010 - 05:35

eu gostei de match point, do hospedeiro e de i'm not here

#3 CJ Brasileiro

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Posted 10/02/2010 - 05:57

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, A Viagem de Chihiro foram os únicos que eu assisti dessa lista.

Sangue Negro eu vi o começo e depois desisti de assistir.

Onde os Fracos Não Tem Vez e Watchmen deviam ter entrado.
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#4 Iron Fist

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Posted 10/02/2010 - 07:08

Lista muito boa, mais pqp CREPÚSCULO!

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#5 Leiker535

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Posted 10/02/2010 - 07:31

Aff, Avatar divia tar nessa lista, os efeitos especiais dele são os melhores, 2 bilhões de dólares a produção ( eu soube )...
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#6 Kodama

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Posted 10/02/2010 - 11:21

nada a ver, os star wars novos nao foram nada de porcaria, vc que é uma porcaria (para a pessoa que escreveu o post) e outra, n incluir a trilogia do senhor dos anéis, essa pessoa devia ser presa

#7 moke

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Posted 11/02/2010 - 10:54

Gabryel, Crepúsculo está exatamente na lista de filmes que ele não quer comentar, pra mim muito babaca...Concordo que muitos filmes que ele disse são realmente muito bons, mas porra, falar que esses filmes não merecem ser comentados é brincadeira:

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)

Avatar (2009)

Watchmen (2009)

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2008)

300 (2007)

A trilogia Senhor dos Anéis

A série Harry Potter


Notícia mais trash desse HCGBRASIL...

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#8 Iron Fist

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Posted 11/02/2010 - 12:23

Gabryel, Crepúsculo está exatamente na lista de filmes que ele não quer comentar, pra mim muito babaca...Concordo que muitos filmes que ele disse são realmente muito bons, mas porra, falar que esses filmes não merecem ser comentados é brincadeira:

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008)

Avatar (2009)

Watchmen (2009)

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2008)

300 (2007)

A trilogia Senhor dos Anéis

A série Harry Potter


Notícia mais trash desse HCGBRASIL...


Não li a notícia direito e falei merda, essa mania é fodas =/.
Mais realmente, concordo sem por cento com você kodama,

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